Quinta-feira, 5 de Junho de 2008

O problema de um free rider na sala de aula.

My teachers helped guide and motivate me; but the responsibility of learning was left with me. Joseph Stiglitz

A analise custo beneficio é uma poderosa analise na economia. De facto, é uma importante ferramenta que potencia o quadro mental de um economista. E espantosamente, pode ser aplicado a praticamente todas as situações do quotidiano.

 

Tomemos em consideração uma normal sala de aulas, polvilhada por alunos que estudem seja o que for, ouvindo  as lições dos seus professores. Normalmente, o acto de ir assistir a uma hora/hora e meia de um tipo a rabiscar, gesticular e falar de coisas que estão escritas em livros grossos e chatos não é necessariamente o ideal de um tempo bem passado para esses alunos. (claro que há excepções; eu gosto de livros grossos e chatos e há aulas em que até é interessante estar) Normalmente, as aulas tem uma característica interessante: ou são demasiado lentas para que possamos seguir coerentemente uma linha de raciocínio válido ou são demasiado rápidas e ai não percebemos nada porque não nos deixam tempo para pensar. Existe a 3ºhipotese: a aula corre bem e até percebemos aquilo, mas até nesse caso deparamo-nos com a falibilidade da nossa memória e uns dias depois não nos recordamos nada da aula.

 

Pois bem, admitamos que o maior benefício que obtemos da ida á aula são os nossos apontamentos, que mais tarde servirão para estudar de modo a não chumbar na frequência/exame/teste.

 

Como normalmente nas universidades não existe limite de faltas, o facto de não irmos á aula implica a perda desses apontamentos e consequentemente uma maior probabilidade de não passarmos na cadeira. (Admitamos que o facto de aparecermos ou não nas aulas não influencia a nossa nota, mesmo que inconscientemente os professores tenham isso em conta.) Colocando as coisas deste modo, podemos pressupor que o aluno prefere não estar na aula e ir com os amigos para o café ou fazer um campeonato de Pro Evolution Soccer (se bem que o mais provável é preferir passar a manhã da aula a dormir depois de ter passado a noite no café com os amigos e de ter feito o campeonato de Pro Evolution Soccer). Claro que nesses casos, o rapaz vai pedir ao colega amigo marrão que lhe empreste os apontamentos, obtendo o beneficio de ter os apontamentos, sem o custo de ter de ouvir o catedrático de plantão.

 

Este problema é o que se chama de problema de free rider: um tipo que aproveitando a acção de alguém que incorre num custo para obter um beneficio, consegue obter o mesmo beneficio sem o custo. È o caso de um tipo que consegue uma boleia de um amigo sem pagar a gasolina: consegue o transporte grátis, com o amigo a ter de suportar o custo da gasolina (e da compra do carro).

 

Voltando ao problema da aula, os alunos deparam-se com um dilema e um incentivo perverso: visto que podem faltar ás aulas e obter os apontamentos, porque não deixar as  aulas para os alunos marrões cuja propensão para ir á aula é maior e depois ir buscar os apontamentos a esses tipos? Assim, os alunos mais “baldas” poderiam colher os benefícios e nenhum dos custos.

 

No entanto isto não acontece devido a uma serie de razões: a primeira prende-se com a intolerância das pessoas de serem constantemente abordadas pelos apontamentos. As pessoas que vão ás aulas tem uma tendência natural para emprestar os apontamentos aos amigos mais chegados ou ao ocasional conhecido, mas são notoriamente impacientes e intolerantes quando são muitos pedidos de varias pessoas ao longo do tempo, pelo que a partir de um certo nível de pedidos, recusar-se-iam a emprestar os apontamentos. Quer dizer... há certas pessoas que simplesmente recusar-se-iam a emprestar os apontamentos á própria mãe.

 

Outro aspecto prende-se com o facto de praticamente ninguém gostar de ver alguém obter um beneficio sem o merecer. Podemos tolerá-lo, mas no fundo, devido á natureza puramente egoísta do ser humano, não gostamos. Como tal, acabar-se-ia por não emprestar os apontamentos, no limite.

 

Assim sendo, a maioria dos alunos desloca-se á sala de aulas para ouvir a lição e obter os apontamentos, visto que se não o fizer, o custo de chumbar no exame é bem maior do que o beneficio de estar na esplanada. Notemos que isto não se aplica a todos; existem alunos para qual estar na esplanada é mais benéfico do que o custo de chumbar de ano.

 

Se utilizássemos a óptica utilitarista para abordarmos este problema, chegaríamos á conclusão de que o sofrimento de um é um bom preço a pagar para o bem estar de todos os outros, pelo que um aluno iria ás aulas do catedrático para sofrer e escrever os apontamentos, enquanto que o resto da turma estaria alegremente a sair em grupo e a dormir até tarde. No entanto, este caso abre um problema: qual seria o nobre samaritano que iria se sacrificar para isto? Como somos todos egoístas, nenhum de nós estaríamos dispostos a fazer este tipo de sacrifício para que todos tenhamos os benefícios e só um detenha os custos. Como ninguém está disposto a tal, TODOS vão ás aulas, para ter a certeza de obtêm os apontamentos. Esta situação é mais uma variação do clássico Dilema do Prisioneiro, em que não sabendo quem é que vai á aula , vão todos á aula para obter os apontamentos.

 

Este tipo de problema poderá ter duas soluções: ou a turma se organiza e divide a dor entre si: a cada aula vai um e só um membro da turma (de modo a mitigar o custo pela turma) para depois dividirem os apontamentos; ou a minha favorita: criar um incentivo para um aluno se sacrificar, numa forma de subsidio. O colega que se sacrifica pela turma iria receber um subsidio por parte dos colegas de modo a compensar o custo de ir assistir ás aulas. O beneficio desse subsidio deverá ser maior do que o custo associado á ida á aula, pelo que, caso contrario, ninguém se sacrificaria.

 

Até mesmo numa sala de aula se pode pensar em termos económicos.


publicado por Oraculo às 00:11
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Quarta-feira, 4 de Junho de 2008

A velha questão de onde guardar o dinheiro.

If you owe your bank a hundred pounds, you have a problem. But if you owe a million, it has. J.Maynard Keynes 

Todos nós deparamo-nos com questão: onde aplicaremos o dinheiro que ganhamos com o nosso trabalho? Depósitos a prazo, Fundos de Investimento, Acções... são inúmeros os instrumentos em que procuramos colocar o nosso dinheiro a render, para que possamos usa-lo no futuro. Como o dinheiro também tem um valor no tempo, é natural que o dinheiro que tenhamos no banco hoje será menos do que temos amanhã. È estranho e parece contra-senso mas é verdade. Compramos um carro hoje, por vá lá, 20 000€. Se esperamos 4 anos, os mesmos 20 000€ não conseguirão comprar o mesmo carro. A isto se chama inflação, a subida generalizada dos preços. É devido a esta inflação que recebemos um juro dos bancos, pois de que outra maneira iríamos colocar o nosso capital numa instituição no qual não poderíamos mexer durante um certo período de tempo. A iliquidez tem o seu custo! Para o nosso dinheiro estar ali parado, sem ser gasto, exigimos uma pequena remuneração.


Visto de esta maneira,  se calhar começamos a achar parvoíce o facto de alguns dos nossos avós terem guardado o dinheiro deles debaixo do colchão. (Ok, ainda há pessoas a fazer isso). Curiosamente, guardar o dinheiro no colchão tem um efeito interessante: BAIXAM OS PREÇOS! Passo a explicar: a colocação do dinheiro debaixo dos colchões tem o efeito desse dinheiro “desaparecer” do mapa monetário. Ou seja, esse dinheiro, não está aplicado em nada. É como se não existisse. Segundo a teoria económica, os preços dependem fortemente da quantidade de moeda na economia, pelo que uma diminuição da moeda na economia faria com que a moeda fosse mais valorizada e se conseguisse comprar mais bens com essa moeda. Twist interessante.


No entanto, há que reafirmar que a poupança em si mesmo não ajuda a economia como um todo. Na sociedade de consumo em que vivemos hoje, gastar mais dinheiro ajuda a dinamizar a economia. Pensem no consumo como o lubrificante da economia, ajudando-a a mover-se melhor. Se vamos comprar uma lata de conserva ao supermercado, estamos a dar lucro ao supermercado, que pagará aos seus empregados, que irão comprar os seus bens a outros, o que dinamiza o ciclo económico.


No fim, nenhum de nós sabe o que é melhor: poupar ou gastar. Deixo isso ao vosso critério.
 


publicado por Oraculo às 11:42
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Terça-feira, 3 de Junho de 2008

Economices de uma saída á noite.

An economist is a man who states the obvious in terms of the incomprehensible Alfred Knopf

Apesar da minha formação académica complementar e profissão ser algo paralelo, considero-me, acima de tudo, um economista. Embora a profissão de economista seja algo que não está plenamente definido, acredito que o que define um economista seja mais a sua postura e perspectiva sobre o mundo mais do que qualquer outra coisa. No fundo, e como definiu o Steven Levitt, economista co-autor do Freaknomics, a economia é a ciência que estuda os incentivos. E é com esse quadro mental que estou formatado e no qual raciociono muitas das questões que abundam na realidade quotidiana. Aqui deixo alguns das situações com que me deparo:


No fim de semana passado, numa normal saída com amigos, decidimos ir a um bar numa localidade do Algarve, bastante conhecida. Quando entramos, entregam-nos um cartãozinho para apontarem as bebidas que consumirmos, como é normal neste tipo de sítios. No final do cartãozinho, estava uma advertência: “A perda deste cartão implica o pagamento da quantia de 90€”. Claro que já tinha visto o mesmo aviso em muitos outros cartões, mas pela primeira vez, olhei para aquela advertência como um economista. È uma questão curiosa: se mantivermos o cartão, o nosso consumo será um custo variável; se perdermos o cartão, o nosso custo passa a ser fixo. È uma dicotomia interessante, ou seja, temos um incentivo para “perdermos” o cartão quando a nossa despesa ultrapassa os 90€! Não é preciso ser um economista para se perceber isso; já vi muitos amigos e conhecidos meus implementarem esta estratégia.
Em linguagem económica, uma pessoa tem um incentivo enorme para perder o cartão quando os seus custos variáveis excedem o custo fixo a pagar com a perda do cartão. Se o cliente estiver sozinho e procurar beber os 90€ sozinho, admitamos que será difícil sair do bar sem cambalear, a não ser que invista em Moet & Chandon ou um whisky carote. Como o álcool também obedece á lei dos rendimentos decrescentes, uma unidade adicional de álcool ingerido trará menos prazer ao cliente, a partir de uma certa altura. A partir de uma quantidade ingerida, o beneficio ficará negativa, no sentido de entrar num alegre coma alcoólico, ou pelo menos sujar o chão do bar. Ou seja, este cliente sozinho, mesmo que ultrapasse os 90€ e perca o cartão, a casa estará a ganhar, pois o prejuízo deverá ser compensado pelos restantes clientes, mais regrados, e realizará uma boa venda, embora a sua margem tenha sido mitigada pelo consumo adicional não pago.


Mas... se o cliente estiver com amigos (o que é mais provável, convenhamos), e colocar toda a conta num só cartão e depois “perder” o cartão, então a casa poderá potencialmente perder bastante. No seguimento do raciocínio, um grupo inumerável de clientes poderá beber para alem dos 90€ e não sentir a brutal ressaca do dia a seguir. No entanto, a casa não é estúpida: os cartões tem um numero limite de bebidas a serem imputadas (18 para ser mais preciso), o que levará a que seja necessário que essas bebidas custem mais do que 5€ cada para que a perda do cartão seja benéfico. Como uma boa parte das bebidas chega marginalmente a esse valor, então poderemos safarmo-nos com o pagamento dos 90€, e bebermos mais do que esse valor, se investirmos nas bebidas mais caras. Porêm, ao investir nas bebidas mais caras, o mais provável é que chamemos a atenção dos colaboradores do bar, pelo que aumenta o risco de sermos apanhados.

 

É claro que quanto maior o risco, maior a recompensa; neste caso pedirmos as tais garrafas de Don Perignon e “perdermos” o cartão e pensarmos que talvez possamos limitar um gasto estupendo a 90€ na noite. È claro que convenhamos, que gastar 90€ numa noite não é todos os dias...
 


publicado por Oraculo às 10:48
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Quinta-feira, 8 de Maio de 2008

Combustíveis, petróleo e outros assuntos energéticos

"The use of solar energy has not been opened up because the oil industry does not own the sun."Ralph Nader

Honestamente se há coisa que não compreendo, é o mercado das energias, e não é por falta de vontade! Considero-o um mercado interessante, cheio de pormenores e idiossincrasias interessantes, e com uma importância crescente na economia global.
Mas há situações que efectivamente escapam-me! Vamos por partes: o preço galopante dessa mistela negra e colante que muitos de nós não daríamos grande uso se não a queimássemos para fazer andar os nossos veículos: o petróleo. Desde há uns anos que vemos o preço dos combustíveis a crescer cada vez mais. Eu sou dos que reparo nisso: meto sempre a mesma quantia no que toca a gasóleo e somente tenho visto a mesma quantia a ser colocado no depósito e o numero de litros a descer, numa espiral aparentemente interminável. Já quase não é uma novidade abrirmos a TV e abanarmos a cabeça de raiva com o novo record batido do preço do petróleo! “ O barril de petróleo bateu o record de 122 dólares por barril” e outras afirmações que parecem comparar o desempenho do “ouro negro” ao Obikwelu, ou outro concorrente ao ouro dos 100 metros em velocidade dos Jogos Olímpicos de Pequim.


Mas... se o petróleo está cotado em dólares, e o dólar também bate recordes de baixa em relação ao Euro, será que a situação está tão má como parece? Efectivamente o preço do petróleo real aumentou, sem duvida, mas não os 100% que se ouve falar por ai. Devido ao facto de o Euro estar a apreciar-se significativamente em relação ao dólar, nós estamos a pagar menos pelo petróleo do que, por exemplo, os americanos. E sim, nós também temos mais dificuldade em colocar os nossos produtos no mercado global, devido á força da nossa moeda, o que reduz as exportações. No entanto, o mercado único Europeu poderá ser bem capaz de uma maior auto-suficiência no que toca a retro alimentação dos seus mercados regionais do que muitos de nós pensamos.


Quais as razões para o aumento do preço do petróleo? Bem, para alem das eventuais crises de abastecimento ( que ocorrem bem mais vezes do que pensamos; eu sinceramente já estou a ficar farto de ver o abastecimento na Nigéria diminuir. Parece que há uma crise politica a cada dia que passa, e que essa crise inclui sempre uns tirinhos) e do aumento da procura da China, da Índia e de outras economias pujantes, a culpa é também dos EUA. Sim, porque esses queixam-se, mas continuam a ser os maiores responsáveis por consumo de petróleo do mundo e sempre a crescer. Mas uma das questões que a mim me confunde é o facto de  a Rússia ter ultrapassado a Arábia Saudita como maior produtor de petróleo e o Brasil ter talvez descoberto a maior reserva de petróleo dos últimos 30 anos na Bacia dos Santos. E nada pára a subida do petróleo.
Voltemos ao assunto do dólar: a sua queda acentuada também tem o seu impacto. Uma queda na cotação do dólar leva a que o petróleo suba, e vice-versa. È uma daquelas questões do tipo: “quem nasceu primeiro, a galinha ou o ovo”.


Em Portugal é ainda mais estranho: como se justifica que os combustíveis são mais baratos do outro lado da fronteira? Terão “nuestros hermanos” descoberto uma fonte de petróleo nas Canárias? Ou será que há ai uns malandros que mal chega petróleo a Portugal, roubam-no e vão vende-lo a Espanha, numa transferência manhosa, aumentando a oferta ali ao lado, e fazendo os preços subir aqui ao lado? Ou será que os larápios das gasolineiras fizeram um acordo de “cavalheiros” para concertar preços, numa clara aplicação do “dilema de prisioneiro”? Ou se calhar é mesmo combinado entre eles: “um gajo mantêm os preços assim, para todos ganharmos e se aparecer ai um palhaço qualquer com intenções de diminuir os preços, o tipo é limpo por nós!
Talvez esta acusação tenha sido um pouco forte demais, mas enfim, se até a Autoridade da Concorrência vem afirmar que há indícios de concertação e cartelização de preços na industria energética, há algo que está podre neste reino. Sim, porque esses tipos da Autoridade são mais tapados do que uma porta com um lençol opaco por cima, fechada num cofre! Isso é demais evidente!


Se existe alguém que ganha com esta subida desenfreada são os tipos que apostam nas chamadas Energias Renováveis. Admito que gosto dessa industria! É algo na qual eu gostaria de me meter, e as novas tecnologias foto voltaicas dão esperança para uma energia mais limpa, e sem esquecer as eólicas. Até meterem uns moinhos na minha zona! Deve ser interessante!
E já agora dou uma sugestão: no final do mês entra em Bolsa a EDP Renováveis. Visto como é um negocio em expansão, é bem capaz de ser uma aposta bem interessante!
 


publicado por Oraculo às 20:55
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Segunda-feira, 3 de Março de 2008

Responsabilidade Social e Empresas: Uma Reflexão

There is only one basic human right, the right to do as you damn well please. And with it comes the only basic human duty, the duty to take the consequences. PJ Rourke.
À medida que as sociedades evoluem, também os valores dessas mesmas sociedades vão sofrendo alterações. No século XXI, no mundo Ocidental, já não se exige somente que se satisfaçam as necessidades básicas, necessárias para a sobrevivência do género humano. Satisfeitas essas necessidades, o género humano, consubstanciado na sociedade, vai lentamente exigindo que certos valores, sejam respeitados. Noções como compromisso, honra, solidariedade, justiça, integridade, responsabilidade são cada vez mais requisitadas pelas pessoas como um código de conduta para o individuo humano.
As empresas, enquanto aglomerados de ideias e indivíduos deverão reflectir estes valores na sua própria actividade, da mesma maneira que esses valores são exigidos ao cidadão comum.
Neste contexto, espera-se mais das empresas e sociedades do que a geração de lucro para o accionista, como muitos “capitalistas” puros do século XX defenderiam. Embora os gestores devam prestar contas aos accionistas das empresas, tal visão é apenas limitadora do verdadeiro papel de uma empresa. È impensável observar as empresas apenas como entidades que apenas se preocupam com o bem estar dos intervenientes directos no financiamento das suas actividades. Dotadas de uma capacidade de intervenção superior ao cidadão comum, as empresas deverão ser vistas como uma parte integrante e interventiva da sociedade onde se insere, e não como um organismo fechado e estanque, sob o jugo dos accionistas. Embora sejam os accionistas que tenham arriscado o seu dinheiro, tal facto não retira a responsabilidade colectiva que uma empresa detêm perante a sociedade..
Uma empresa deverá ser entendida com um membro integrante e único da sociedade humana, na medida em que nela convergem esforços e ideias de dezenas, ou milhares de seres humanos que trabalham de forma conjunta para atingir os objectivos definidos. Neste contexto, o grau de acção e influência que uma empresa detém é vastamente superior ao de um cidadão comum, e como tal, detém um maior grau de responsabilidade, devendo não só defender os seus accionistas, mas defender o bem estar da restante sociedade.
Todo o cidadão deverá deter a consciência de que detém uma quota parte de responsabilidade perante este mundo e isto é especialmente verdade para as empresas. Como diria um tio de uma conhecida personagem de banda desenhada aracnídeo, “com grande poder, vêem as grandes responsabilidades”. 
È com estes valores em mente que as empresas deverão rever o seu papel na sociedade, e reconhecer o papel das suas acções na sua própria actividade, no que diz respeito à crescente importância da imagem que uma empresa detém perante os seus clientes. Como já tem sido demonstrado várias vezes, uma empresa que se comporte de uma maneira que viola certos conceitos e valores que os seus clientes observam como parte integral da sua vida (violação de direitos humanos, por exemplo) verá a sua actividade contestada e as suas próprias receitas diminuídas pela escolha dos seus clientes em não comprar os seus produtos. Num mundo em que a informação é fluida a nível global, uma insatisfação com um comportamento desviante de uma empresa poderá chegar aos ouvidos de outros clientes em segundos. Neste contexto de informação quase perfeita, as actividades de uma empresa deverão ser cristalinas e impecáveis, e a empresa deverá reconhecer o seu papel como o centro de uma constelação de interesses de indivíduos e grupos que afectam os processos de decisão, de modo a conseguirem benefícios para os interesses que defendem. Assim, a gestão de uma empresa deverá ser responsável perante a comunidade em geral e perante aqueles que reclamam ser legitimamente parte interessada na actividade da empresa. É o reconhecimento da importância da responsabilidade social. 
Caso uma empresa decida seguir a via da responsabilidade social, então procederá não só para fazer a sua parte no que toca à melhoria da sociedade humana, como colherá os seus frutos, materializados no recrutamento de colaboradores mais talentosos e no aumento das suas próprias receitas, pelo reforço dos laços de confiança com os clientes, contribuindo para a sua retenção. A chamada “Boa Gestão” contribui assim para o aumento dos lucros e para o bem-estar da sociedade.
No entanto, a Responsabilidade Social coloca uma série de desafios às empresas que não podem ser negligenciados. A escolha de fornecedores éticos sobre não-éticos poderá deter um papel importante na definição do preço final do produto. Um fornecedor não-ético, que use trabalho escravo e trabalho infantil detêm uma vantagem de custo no que toca ao fabrico do produto. A escolha da empresa em não contratar este fornecedor levará a que detenha um preço mais elevado do que a sua concorrente que contrata o fornecedor não-ético, perdendo quota de mercado. Nestes casos, a empresa deverá procurar comunicar e asseverar a sua escolha e explicar aos seus clientes a razão de terem preços mais altos. A entrega de uma empresa a uma causa de solidariedade, na qual não obtêm qualquer beneficio directo, como o Marketing Social, poderá ser visto com um custo imediato.
 Em alguns aspectos, a prossecução da Responsabilidade Social incorre em custos de curto prazo, mas que no longo prazo, serão transformados em proveitos, à medida que a comunidade vai integrando e processando a informação sobre a empresa ética.
Esta crescente consciência da comunidade sobre ética e a consequente integração desse conhecimento no processo decisório no consumo levará a que, no futuro, o mercado comece a adaptar-se de maneira a que as empresas éticas prosperem, e as empresas não-éticas sejam colocadas fora do mercado. Deste modo, a Responsabilidade Social será considerada um factor critico de sucesso no Século XXI.
Ensaio entregue no contexto de curso de  Avaliação Imobiliaria 

publicado por Oraculo às 17:07
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Sexta-feira, 16 de Novembro de 2007

Mudanças na UALG

Pure logic is the ruin of the spirit. Antoine de Saint-Exupéry
No últimos dois anos, as mudanças tem sido uma constante na Universidade do Algarve. Houve transição de Reitores, uma inserção de novos cursos e toda uma parafernália de outros acontecimentos interessantes.
 
Há cerca de 2 anos atrás, deu-se a mudança de Magnifico Reitor. O Professor Dr. Adriano Pimpão deu lugar ao Professor Dr. João Guerreiro. E até ai tudo bem.
O Magnifico Reitor João Guerreiro até começou muito bem, por dar continuidade aos processos do seu antecessor, com a criação do mestrado de ciências-biomédicas, um passo para a criação do curso de Medicina. A Criação de alguns pólos de desenvolvimento, como o CRIA e alguns projectos de interligação empresarial também são algo que devem ser implementados, se bem, de forma tímida.
 
Porem, como todas as decisões, há umas boas e outras más. Depois há as péssimas. Uma das ideias que já andavam nos corredores há uns bons anos é a extinção das diferentes escolas e faculdades e a sua transformação e integração em 3 Departamentos: Departamento de Economia, de Ciencias Sociais e de Ciencias e Tecnologia. Tal evento teria como consequência a criação de um conselho cientifico único, a ausência de indicação de professores por parte das próprias faculdades (passando essa responsabilidade para a reitoria), assim como a definição por parte da reitoria dos projectos de investigação a apoiar.
 
Na minha humilde opinião, questiono-me sobre a utilidade de tal mudança. Primeiro é as dificuldades logísticas: na Universidade existem dois ensinos: o Politécnico e o Universitário. Gostava de ver como diabos conseguem conciliar isso, em departamentos.
Os serviços centralizados trazem ineficiência; tomar decisões é muito mais lento e faz com que uma simples decisão seja difícil e morosa.
 
São modas de gestão: centralizar aquilo que está descentralizado e descentralizar o que está centralizado. Mas não deixa de ser incoerente numa Universidade que se quer mais dinâmica.

publicado por Oraculo às 14:28
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Quarta-feira, 19 de Setembro de 2007

Crise Imobiliária Parte II: Consequências.

Banks lend by creating credit. They create the means of payment, out of nothing. Ralph Hawtery
Embora pouco tempo tenha passado desde que escrevi o artigo sobre a crise Imobiliária, sinto uma necessidade em escrever mais um pouco sobre o tema.
Desta vez deparo-me com as consequências do chamado crédito “sub-prime” ou crédito imobiliário de alto risco, discutido previamente. Embora os fundos não sejam propriedade dos bancos, estes são utilizados pelos bancos como investimento para os depósitos que recebem. O facto dos bancos sugerirem alternativas ao comum depósito a prazo em fundos de investimento coloca-os, necessariamente, a sofrer com o risco desses fundos.
 
Ainda mais curioso é o facto destes investimentos serem aquilo que os financeiros chamam de produtos financeiros estruturados, que nada mais são do que produtos nos quais o dinheiro investido deverá deter um retorno certo. Por exemplo, se comprarmos um desses produtos para que tenha um retorno de 100 euros daqui a 5 anos, o responsável pela transacção compra um produto de 80 euros (por exemplo), que daqui a 5 anos terá um valor de 100 euros, e com o remanescente, compara derivados e opções de acordo com um estratégia predefinida.
 
Os investimentos nestes fundos são deste tipo, o que implica que o banco deverá ter de pagar esses investimentos, quer dêem para o torto ou não. Mas o mais importante para nós, portugueses, é que estes investimentos não aparecem no balanço do Banco. Ninguém sabe quem fez a asneirada, e quem está mais sujeito ao risco.
Como tal, a taxa de juro interbancária (a taxa á qual os bancos emprestam dinheiro uns aos outros) subiu brutalmente, porque ninguém quer ficar com o menino nos braços. Ora, assim, ninguém empresta dinheiro uns aos outros, e os bancos recusam-se a emprestarem dinheiro aos particulares.
 
É hilariante, ver o sector mais poderoso em Portugal, a tremerem como varas verdes, se bem que este riso é preocupante. Vamos ver no que dá. Talvez lá para o final do ano, ou no inicio do novo ano fiscal, os bancos consigam reavaliar os seus activos e promover mais um pouco de confiança.
 
Pois todo o sector financeiro está assente neste principio basilar da Humanidade: a Confiança.
 


publicado por Oraculo às 15:47
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Quem disse que tirar um curso é ir para o desemprego?

If you think that education is expensive, try ignorance. Derek Bok
Um artigo publicado no jornal “Publico” de ontem indica que um licenciado (em média; há que ter muita atenção ás médias) recebe mais 80% do que um não licenciado. Isto somente vem dar mais um incentivo para se tirar um curso. È para enterrar aquelas ideias agoirentas dos que pensam que “Para que tirar um curso, se depois não ganho nada com isso”.
Curiosamente, para aqueles que dizem que os pais não influenciam nada no filho, no que toca a ir para a Universidade, verifica-se que os filhos de pais licenciados tem 3,2 vezes maiores probabilidades de tirar um curso superior.
 
Numero curiosos, no mínimo, mas gostaria de acrescentar que não é só tirar um curso: há que perseverar e trabalhar para ter sucesso… Caso contrario… não há nada para ninguém.

publicado por Oraculo às 14:43
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Segunda-feira, 10 de Setembro de 2007

A Crise Financeira no sector Imobiliário dos Estados Unidos da América.

It's all about bucks, kid. The rest is conversation. Gordon Gecko; Wall Street

Embora já não seja noticia propriamente nova, há já algum tempo que pretendo escrever sobre este tema. Talvez por sentir-me relacionado com ambas as áreas, as Finanças e a Área Imobiliária, sinto-me tentado a tentar fazer sentido da crise.
 
Começando por um facto muito importante: a Crise foi criada com base numa asneirazinha financeira… que se olharmos para trás, parecia ser uma boa ideia (pelo menos para alguns; eu sou demasiado conservador em termos de investimentos para fazer esse tipo de coisa).
 
Acontece que no final de década de 90, nos Estados Unidos da América, os bancos decidiram conceder créditos para habitação a pessoas, que de outra maneira não teria hipóteses de os pagar. Créditos de alto risco, portanto. Mesmo nessa altura, com a taxa de juro na ordem dos 5% reais, os créditos foram concedidos, e as taxas pagas respeitantes a esses créditos ascendiam aos 2 digitos!
Como o negócio não parecia dar asneira, houve uma serie de investidores que compraram esses empréstimos aos bancos, (visto que originavam rendimentos bastante superiores á média) e constituíram uma serie de fundos de investimentos com base nesses empréstimos. Ora anos passados, com a subida galopante das taxas de juro, o que aconteceu?
 
As pessoas não pagaram, e começaram a declarar incapacidade de pagar os empréstimos! Os fundos foram por ai abaixo, as vendas dos títulos dos fundos cresceram e ninguém queria ficar com títulos praticamente inúteis!
 
Resultado Prático: criação de um clima de instabilidade em relação á Industria Imobiliária, que é relacionada com a Construção, uma das actividades mais importantes da economia e pânico geral!! Enfim… para ser sincero, o sector mais afectado foi mesmo o financeiro; os valores das casas não levaram o tal rombo que todos dizem que levou…
 
Enfim, os analistas ficaram surpreendidos com situação… mas havia alguma coisa para se surpreender? O sector financeiro já suficientemente instável, quando os activos envolvidos nos fundos são instáveis, quanto mais quando baseados numa idiotice!
Mais uma bolha que explodiu… quantos sectores estarão assim, baseados numa corda bamba?
È o que dá, confiar na ganância humana… tomam riscos desnecessários.
 
Os Cisnes Negros do Prof. Taleb atacaram de novo…

publicado por Oraculo às 22:53
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Domingo, 12 de Agosto de 2007

Um pensamento disconexo

"If work were so pleasant, the rich would keep it for themselves."Mark Twain
Mais um dia mais um post, mais uma post ligeiramente forçado. Não deveria ter de me esforçar tanto para escrever um post. Mas enfim: o que me irrita mais é que as alturas em que tenho mais vontade de escrever e nas quais as melhores ideias me aparecem, nunca posso escrever.
Passo algum tempo a conduzir de noite e é nessas alturas, naquela longa estrada sem qualquer luminosidade, como foco de luz dos faróis concentrado num único ponto, que a minha mente se aguça sobre questões que normalmente a minha mente ocupada não reflecte.
 
Adoro essas noites; embora muitas vezes, a minha cabeça já esteja ensonada e a pensar no quanto vou dormir na minha cama, rapidamente penso noutras coisas para não me deixar cair nas asas do Morfeu em plena auto-estrada. Não creio que iria ajudar muito o meu trajecto para casa.
 
 

publicado por Oraculo às 17:16
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