Quinta-feira, 5 de Junho de 2008

O problema de um free rider na sala de aula.

My teachers helped guide and motivate me; but the responsibility of learning was left with me. Joseph Stiglitz

A analise custo beneficio é uma poderosa analise na economia. De facto, é uma importante ferramenta que potencia o quadro mental de um economista. E espantosamente, pode ser aplicado a praticamente todas as situações do quotidiano.

 

Tomemos em consideração uma normal sala de aulas, polvilhada por alunos que estudem seja o que for, ouvindo  as lições dos seus professores. Normalmente, o acto de ir assistir a uma hora/hora e meia de um tipo a rabiscar, gesticular e falar de coisas que estão escritas em livros grossos e chatos não é necessariamente o ideal de um tempo bem passado para esses alunos. (claro que há excepções; eu gosto de livros grossos e chatos e há aulas em que até é interessante estar) Normalmente, as aulas tem uma característica interessante: ou são demasiado lentas para que possamos seguir coerentemente uma linha de raciocínio válido ou são demasiado rápidas e ai não percebemos nada porque não nos deixam tempo para pensar. Existe a 3ºhipotese: a aula corre bem e até percebemos aquilo, mas até nesse caso deparamo-nos com a falibilidade da nossa memória e uns dias depois não nos recordamos nada da aula.

 

Pois bem, admitamos que o maior benefício que obtemos da ida á aula são os nossos apontamentos, que mais tarde servirão para estudar de modo a não chumbar na frequência/exame/teste.

 

Como normalmente nas universidades não existe limite de faltas, o facto de não irmos á aula implica a perda desses apontamentos e consequentemente uma maior probabilidade de não passarmos na cadeira. (Admitamos que o facto de aparecermos ou não nas aulas não influencia a nossa nota, mesmo que inconscientemente os professores tenham isso em conta.) Colocando as coisas deste modo, podemos pressupor que o aluno prefere não estar na aula e ir com os amigos para o café ou fazer um campeonato de Pro Evolution Soccer (se bem que o mais provável é preferir passar a manhã da aula a dormir depois de ter passado a noite no café com os amigos e de ter feito o campeonato de Pro Evolution Soccer). Claro que nesses casos, o rapaz vai pedir ao colega amigo marrão que lhe empreste os apontamentos, obtendo o beneficio de ter os apontamentos, sem o custo de ter de ouvir o catedrático de plantão.

 

Este problema é o que se chama de problema de free rider: um tipo que aproveitando a acção de alguém que incorre num custo para obter um beneficio, consegue obter o mesmo beneficio sem o custo. È o caso de um tipo que consegue uma boleia de um amigo sem pagar a gasolina: consegue o transporte grátis, com o amigo a ter de suportar o custo da gasolina (e da compra do carro).

 

Voltando ao problema da aula, os alunos deparam-se com um dilema e um incentivo perverso: visto que podem faltar ás aulas e obter os apontamentos, porque não deixar as  aulas para os alunos marrões cuja propensão para ir á aula é maior e depois ir buscar os apontamentos a esses tipos? Assim, os alunos mais “baldas” poderiam colher os benefícios e nenhum dos custos.

 

No entanto isto não acontece devido a uma serie de razões: a primeira prende-se com a intolerância das pessoas de serem constantemente abordadas pelos apontamentos. As pessoas que vão ás aulas tem uma tendência natural para emprestar os apontamentos aos amigos mais chegados ou ao ocasional conhecido, mas são notoriamente impacientes e intolerantes quando são muitos pedidos de varias pessoas ao longo do tempo, pelo que a partir de um certo nível de pedidos, recusar-se-iam a emprestar os apontamentos. Quer dizer... há certas pessoas que simplesmente recusar-se-iam a emprestar os apontamentos á própria mãe.

 

Outro aspecto prende-se com o facto de praticamente ninguém gostar de ver alguém obter um beneficio sem o merecer. Podemos tolerá-lo, mas no fundo, devido á natureza puramente egoísta do ser humano, não gostamos. Como tal, acabar-se-ia por não emprestar os apontamentos, no limite.

 

Assim sendo, a maioria dos alunos desloca-se á sala de aulas para ouvir a lição e obter os apontamentos, visto que se não o fizer, o custo de chumbar no exame é bem maior do que o beneficio de estar na esplanada. Notemos que isto não se aplica a todos; existem alunos para qual estar na esplanada é mais benéfico do que o custo de chumbar de ano.

 

Se utilizássemos a óptica utilitarista para abordarmos este problema, chegaríamos á conclusão de que o sofrimento de um é um bom preço a pagar para o bem estar de todos os outros, pelo que um aluno iria ás aulas do catedrático para sofrer e escrever os apontamentos, enquanto que o resto da turma estaria alegremente a sair em grupo e a dormir até tarde. No entanto, este caso abre um problema: qual seria o nobre samaritano que iria se sacrificar para isto? Como somos todos egoístas, nenhum de nós estaríamos dispostos a fazer este tipo de sacrifício para que todos tenhamos os benefícios e só um detenha os custos. Como ninguém está disposto a tal, TODOS vão ás aulas, para ter a certeza de obtêm os apontamentos. Esta situação é mais uma variação do clássico Dilema do Prisioneiro, em que não sabendo quem é que vai á aula , vão todos á aula para obter os apontamentos.

 

Este tipo de problema poderá ter duas soluções: ou a turma se organiza e divide a dor entre si: a cada aula vai um e só um membro da turma (de modo a mitigar o custo pela turma) para depois dividirem os apontamentos; ou a minha favorita: criar um incentivo para um aluno se sacrificar, numa forma de subsidio. O colega que se sacrifica pela turma iria receber um subsidio por parte dos colegas de modo a compensar o custo de ir assistir ás aulas. O beneficio desse subsidio deverá ser maior do que o custo associado á ida á aula, pelo que, caso contrario, ninguém se sacrificaria.

 

Até mesmo numa sala de aula se pode pensar em termos económicos.


publicado por Oraculo às 00:11
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Quarta-feira, 4 de Junho de 2008

A velha questão de onde guardar o dinheiro.

If you owe your bank a hundred pounds, you have a problem. But if you owe a million, it has. J.Maynard Keynes 

Todos nós deparamo-nos com questão: onde aplicaremos o dinheiro que ganhamos com o nosso trabalho? Depósitos a prazo, Fundos de Investimento, Acções... são inúmeros os instrumentos em que procuramos colocar o nosso dinheiro a render, para que possamos usa-lo no futuro. Como o dinheiro também tem um valor no tempo, é natural que o dinheiro que tenhamos no banco hoje será menos do que temos amanhã. È estranho e parece contra-senso mas é verdade. Compramos um carro hoje, por vá lá, 20 000€. Se esperamos 4 anos, os mesmos 20 000€ não conseguirão comprar o mesmo carro. A isto se chama inflação, a subida generalizada dos preços. É devido a esta inflação que recebemos um juro dos bancos, pois de que outra maneira iríamos colocar o nosso capital numa instituição no qual não poderíamos mexer durante um certo período de tempo. A iliquidez tem o seu custo! Para o nosso dinheiro estar ali parado, sem ser gasto, exigimos uma pequena remuneração.


Visto de esta maneira,  se calhar começamos a achar parvoíce o facto de alguns dos nossos avós terem guardado o dinheiro deles debaixo do colchão. (Ok, ainda há pessoas a fazer isso). Curiosamente, guardar o dinheiro no colchão tem um efeito interessante: BAIXAM OS PREÇOS! Passo a explicar: a colocação do dinheiro debaixo dos colchões tem o efeito desse dinheiro “desaparecer” do mapa monetário. Ou seja, esse dinheiro, não está aplicado em nada. É como se não existisse. Segundo a teoria económica, os preços dependem fortemente da quantidade de moeda na economia, pelo que uma diminuição da moeda na economia faria com que a moeda fosse mais valorizada e se conseguisse comprar mais bens com essa moeda. Twist interessante.


No entanto, há que reafirmar que a poupança em si mesmo não ajuda a economia como um todo. Na sociedade de consumo em que vivemos hoje, gastar mais dinheiro ajuda a dinamizar a economia. Pensem no consumo como o lubrificante da economia, ajudando-a a mover-se melhor. Se vamos comprar uma lata de conserva ao supermercado, estamos a dar lucro ao supermercado, que pagará aos seus empregados, que irão comprar os seus bens a outros, o que dinamiza o ciclo económico.


No fim, nenhum de nós sabe o que é melhor: poupar ou gastar. Deixo isso ao vosso critério.
 


publicado por Oraculo às 11:42
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Terça-feira, 3 de Junho de 2008

Economices de uma saída á noite.

An economist is a man who states the obvious in terms of the incomprehensible Alfred Knopf

Apesar da minha formação académica complementar e profissão ser algo paralelo, considero-me, acima de tudo, um economista. Embora a profissão de economista seja algo que não está plenamente definido, acredito que o que define um economista seja mais a sua postura e perspectiva sobre o mundo mais do que qualquer outra coisa. No fundo, e como definiu o Steven Levitt, economista co-autor do Freaknomics, a economia é a ciência que estuda os incentivos. E é com esse quadro mental que estou formatado e no qual raciociono muitas das questões que abundam na realidade quotidiana. Aqui deixo alguns das situações com que me deparo:


No fim de semana passado, numa normal saída com amigos, decidimos ir a um bar numa localidade do Algarve, bastante conhecida. Quando entramos, entregam-nos um cartãozinho para apontarem as bebidas que consumirmos, como é normal neste tipo de sítios. No final do cartãozinho, estava uma advertência: “A perda deste cartão implica o pagamento da quantia de 90€”. Claro que já tinha visto o mesmo aviso em muitos outros cartões, mas pela primeira vez, olhei para aquela advertência como um economista. È uma questão curiosa: se mantivermos o cartão, o nosso consumo será um custo variável; se perdermos o cartão, o nosso custo passa a ser fixo. È uma dicotomia interessante, ou seja, temos um incentivo para “perdermos” o cartão quando a nossa despesa ultrapassa os 90€! Não é preciso ser um economista para se perceber isso; já vi muitos amigos e conhecidos meus implementarem esta estratégia.
Em linguagem económica, uma pessoa tem um incentivo enorme para perder o cartão quando os seus custos variáveis excedem o custo fixo a pagar com a perda do cartão. Se o cliente estiver sozinho e procurar beber os 90€ sozinho, admitamos que será difícil sair do bar sem cambalear, a não ser que invista em Moet & Chandon ou um whisky carote. Como o álcool também obedece á lei dos rendimentos decrescentes, uma unidade adicional de álcool ingerido trará menos prazer ao cliente, a partir de uma certa altura. A partir de uma quantidade ingerida, o beneficio ficará negativa, no sentido de entrar num alegre coma alcoólico, ou pelo menos sujar o chão do bar. Ou seja, este cliente sozinho, mesmo que ultrapasse os 90€ e perca o cartão, a casa estará a ganhar, pois o prejuízo deverá ser compensado pelos restantes clientes, mais regrados, e realizará uma boa venda, embora a sua margem tenha sido mitigada pelo consumo adicional não pago.


Mas... se o cliente estiver com amigos (o que é mais provável, convenhamos), e colocar toda a conta num só cartão e depois “perder” o cartão, então a casa poderá potencialmente perder bastante. No seguimento do raciocínio, um grupo inumerável de clientes poderá beber para alem dos 90€ e não sentir a brutal ressaca do dia a seguir. No entanto, a casa não é estúpida: os cartões tem um numero limite de bebidas a serem imputadas (18 para ser mais preciso), o que levará a que seja necessário que essas bebidas custem mais do que 5€ cada para que a perda do cartão seja benéfico. Como uma boa parte das bebidas chega marginalmente a esse valor, então poderemos safarmo-nos com o pagamento dos 90€, e bebermos mais do que esse valor, se investirmos nas bebidas mais caras. Porêm, ao investir nas bebidas mais caras, o mais provável é que chamemos a atenção dos colaboradores do bar, pelo que aumenta o risco de sermos apanhados.

 

É claro que quanto maior o risco, maior a recompensa; neste caso pedirmos as tais garrafas de Don Perignon e “perdermos” o cartão e pensarmos que talvez possamos limitar um gasto estupendo a 90€ na noite. È claro que convenhamos, que gastar 90€ numa noite não é todos os dias...
 


publicado por Oraculo às 10:48
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